
Planejamento urbano e resiliência: estudo aponta caminhos para reconstrução de Marques de Souza após as cheias de 2024
Por Lucas George Wendt
|Postado em: 05/02/2026, 12:30:00
A cidade de Marques de Souza, no Vale do Taquari, viveu em 2024 um de seus momentos mais críticos desde o início do século XX. As cheias que atingiram o município deixaram marcas profundas na infraestrutura urbana, no cotidiano da população e na memória coletiva. Diante desse cenário, um estudo acadêmico desenvolvido no Curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade do Vale do Taquari – Univates lança luz sobre caminhos possíveis para reconstruir e reimaginar o espaço urbano local.
Produzido pela estudante Gabriele de Castro, sob orientação do Prof. Arq. Me. Augusto Alves, o trabalho “Planejamento e Mitigação de Riscos: A Reestruturação Urbana de Marques de Souza Pós-Cheias de 2024” propõe diretrizes que integram planejamento urbano, mitigação de riscos, resiliência climática e valorização da identidade histórica do município. A monografia, apresentada na disciplina Trabalho de Conclusão de Curso – Etapa I, torna-se especialmente relevante em um momento em que discussões sobre adaptação climática deixam de ser uma agenda de futuro para se tornarem urgências do presente.
A pesquisa parte da premissa de que a intensificação dos eventos climáticos extremos tornou insuficientes as estruturas urbanas que historicamente sustentaram o desenvolvimento de cidades pequenas. Em Marques de Souza, episódios de inundação que se repetem desde 1919 e se agravaram em 1941, 1956, 2010 e 2024 moldaram não apenas a geografia, mas a própria identidade social da população. As enchentes, como mostra o trabalho, são parte de uma linha do tempo que atravessa gerações, afetando infraestrutura, equipamentos urbanos, moradias, mobilidade e a sensação de segurança da comunidade local.

Em 2024, no auge do desastre, ruas centrais tornaram-se irreconhecíveis. Registros trazidos pela autora mostram a Avenida Benjamin Dörr submersa, residências na área central destruídas e loteamentos como o Brisas da Forqueta completamente alagados. Imagens da Rua Herbert Arthur Biehl, na Linha Bastos, evidenciam o impacto nas comunidades próximas aos arroios, profundamente vulneráveis às alterações bruscas do nível da água.
A pesquisa, no entanto, não se restringe à documentação dos danos. Seu principal objetivo é analisar o perímetro urbano atual e propor diretrizes de reestruturação que possibilitem crescimento seguro, sustentável e alinhado às particularidades geográficas da cidade. Para isso, o estudo investiga o relevo, a hidrografia, o uso do solo, o perfil viário, a ocupação histórica, os impactos ambientais, a distribuição dos equipamentos urbanos e o comportamento das inundações que atingiram a região.
O método empregado combina análise histórica, levantamento de dados ambientais e urbanos, estudo comparado de referências projetuais, leitura de mapas topográficos e de hidrografia, investigação documental e aplicação de ferramentas diagnósticas como a matriz FOFA (Forças, Oportunidades, Fraquezas e Ameaças). O processo inclui ainda a realização de entrevistas com agentes públicos, como o secretário municipal de Administração e colaborador da Defesa Civil, Ricardo Kich, que auxilia no monitoramento dos níveis de água durante eventos extremos.

Os resultados
Os achados do estudo revelam que Marques de Souza possui características que simultaneamente favorecem e dificultam o processo de reconstrução. Por um lado, trata-se de um município com alta qualidade de vida típica de cidades do interior, forte presença da agricultura e de belezas naturais que atraem moradores e visitantes. Por outro, enfrenta limitações estruturais: áreas urbanas densas próximas ao Rio Forqueta, relevo acidentado, falta de dados precisos sobre cotas altimétricas, infraestrutura de drenagem insuficiente e ausência de serviços especializados.
A matriz FOFA elaborada pela autora destaca forças importantes, como o desenvolvimento do turismo impulsionado pela duplicação da BR-386, mas também fraquezas e ameaças que se tornam decisivas, incluindo a recorrência das enxurradas e a dificuldade de expansão urbana em áreas seguras.
Uma das contribuições do estudo é a revisão detalhada do perímetro urbano. A análise demonstra que, embora o município possua grande área territorial, seu limite urbano é reduzido e concentra-se justamente em regiões próximas ao Rio Forqueta, pontos onde ocorreram os maiores danos em 2024. A partir disso, o trabalho propõe diretrizes que envolvem a realocação de loteamentos vulneráveis, criação de novas áreas residenciais em altitudes mais elevadas, zonas de proteção ambiental, implantação de áreas verdes como barreiras naturais, além de revisões específicas no sistema viário e no zoneamento. Para o secretário Ricardo Kich, ouvido na pesquisa, uma das poucas áreas propícias para expansão segura encontra-se na antiga estrada para Linha Bastos, onde a topografia permite intervenções mais eficientes e menor risco de deslizamentos.
A autora dedica parte significativa do estudo à compreensão do comportamento hidrológico da cidade. Mapas produzidos a partir de bases interativas e topográficas mostram que Marques de Souza está inserida em um vale, com extensas planícies adjacentes aos rios, tradicionalmente voltadas à agricultura. A combinação entre solos alagáveis e ocupações urbanas crescentes ao longo das décadas aumentou a pressão sobre áreas sensíveis. A análise das imagens de 2010 e 2024 confirma mudanças drásticas na vegetação, na ocupação do solo e na infraestrutura, reforçando o argumento de que reconstruir apenas aquilo que existia não é suficiente: é preciso reconstruir de forma diferente.
Para embasar suas propostas, Gabriele analisa dois projetos de referência. O primeiro é a Urbanização da Orla Prefeito Luiz Paulo Conde, no Rio de Janeiro, parte do conjunto de transformações do Porto Maravilha. A intervenção carioca destaca-se pela substituição de um modelo centrado no automóvel por uma lógica urbanística orientada ao pedestre, integrada a meios de transporte alternativos, com áreas de convivência, lazer e requalificação ambiental às margens da Baía de Guanabara.
O segundo projeto é a Requalificação Urbanística da Área Central de Rio do Sul, em Santa Catarina, que repensa fluxos, espaços públicos, patrimônio histórico e mobilidade a partir da relação entre rios, pontes e centralidade urbana. Ambas as experiências, de escalas distintas, dialogam com o cenário de Marques de Souza e oferecem estratégias replicáveis, como reorganização de vias, criação de corredores verdes, humanização do espaço público e priorização da segurança hídrica.
O estudo também se orienta pela Agenda 2030 da ONU, especialmente pelos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável que tratam de cidades sustentáveis, ação climática, água potável, infraestrutura resiliente e redução de desigualdades. A autora articula esses princípios às necessidades locais, reforçando que políticas públicas de mitigação de desastres devem ser integradas ao planejamento urbano e não tratadas como ações emergenciais isoladas.
Em relação ao sistema viário, a pesquisa identifica que a BR-386 é o principal eixo de acesso ao município, influenciando diretamente fluxos e dinâmicas urbanas. No perímetro urbano, vias como a Avenida Benjamin Dorr e a Rua Herbert Arthur Biehl cumprem papel importante na circulação regional e no acesso a localidades próximas. A reorganização dessas rotas, segundo o estudo, deve considerar tanto a mobilidade cotidiana quanto rotas de evacuação em situações de emergência climática. A autora recomenda ainda a implantação de vias permeáveis, sinalização aprimorada, novas rotas alternativas, criação de zonas de circulação segura e integração de tecnologias de alerta em tempo real, medidas fundamentais para aumentar a capacidade de resposta diante de eventos extremos.
Outro eixo analisado na pesquisa é a relação entre patrimônio histórico e planejamento urbano. O estudo resgata parte da formação social e arquitetônica da cidade, incluindo a colonização do Vale do Forqueta, o desenvolvimento das comunidades religiosas, a construção do templo inaugurado em 1889 e as transformações socioeconômicas ocorridas entre os séculos XIX e XX. A recuperação desse passado, segundo a autora, é um elemento estruturante para fortalecer o sentimento de pertencimento e orientar projetos urbanos que respeitem a memória da comunidade.
Proposta
A reestruturação urbana proposta pelo trabalho está ancorada em seis grandes eixos temáticos definidos pela autora: aspectos históricos e contratuais, infraestrutura e mobilidade, meio ambiente e risco, ocupação e uso do solo, inclusão social e espaços públicos. A partir deles, Gabriele constrói um arcabouço de ações que incluem: criação de áreas verdes estratégicas para amortecimento de cheias; realocação de moradias localizadas em zonas críticas; implantação de parques urbanos ribeirinhos; desenvolvimento de loteamentos em áreas seguras; revisão de contratos e diretrizes de ocupação; reforço da drenagem urbana; requalificação de vias; preservação do patrimônio construído; incentivo ao turismo sustentável; e ampliação dos equipamentos públicos em regiões menos centrais, garantindo melhor distribuição de serviços essenciais.
A pesquisa destaca ainda que a participação da comunidade é indispensável para o sucesso das intervenções. A experiência recente das cheias de 2024 mostrou que, mais do que planejamento técnico, a reconstrução depende de vínculos sociais, da confiança entre poder público e comunidade e da capacidade de envolver moradores na definição dos rumos do território. A autora ressalta que, para além das perdas materiais, eventos climáticos extremos provocam impactos psicológicos e emocionais, que precisam ser considerados na formulação das políticas públicas.
Ao final do estudo, Gabriele argumenta que Marques de Souza está diante de uma oportunidade histórica. A reconstrução pós-cheias não deve ser encarada como um processo de recuperação do que foi destruído, mas como um momento de redefinição do modelo urbano da cidade, alinhado a princípios de resiliência, sustentabilidade e segurança climática. O trabalho propõe que o município avance para um planejamento urbano integrado, baseado em dados, participação social, proteção ambiental e fortalecimento das infraestruturas. Esse é, segundo a pesquisa, o caminho para proteger não apenas o espaço físico, mas também o modo de vida e a história das gerações futuras.

