
Princípios montessorianos em ação: pesquisa analisa como uma escola do RS transforma autonomia infantil em prática pedagógica
Por Lucas George Wendt
|Postado em: 11/02/2026, 10:30:00
Desde 2011, uma escola privada de Educação Infantil localizada no Rio Grande do Sul organiza sua rotina, seus espaços e suas práticas pedagógicas a partir dos princípios do método Montessori. É nesse contexto que se desenvolveu a pesquisa “Princípios montessorianos na prática: um estudo de caso em uma turma elementar de uma escola montessoriana no Rio Grande do Sul”, trabalho de conclusão de curso de Heloisa Kaplan, apresentado em junho de 2025 no curso de Pedagogia da Universidade do Vale do Taquari – Univates. Orientado pela professora doutora Morgana Domênica Hattge e avaliado por banca composta também pelas professoras doutoras Fabiane Olegário e Danise Vivian, o estudo buscou compreender como essa abordagem pedagógica se materializa no cotidiano escolar e quais contribuições oferece ao desenvolvimento das crianças de três a seis anos.
A investigação parte de uma pergunta: como uma escola de Educação Infantil montessoriana estrutura o ambiente e as práticas pedagógicas para favorecer o desenvolvimento das crianças? Para respondê-la, a autora realizou um estudo de caso de abordagem qualitativa, combinando entrevistas semiestruturadas, observações em sala de aula e registros em diário de campo. O trabalho foi desenvolvido ao longo de 2024 e 2025, com observações presenciais realizadas em abril de 2025 e entrevistas conduzidas com a diretora da escola e com a guia, termo utilizado na pedagogia montessoriana para designar a professora responsável pela turma.
A pesquisa ganha relevância científica ao articular fundamentos teóricos clássicos da educação montessoriana, como as obras de Maria Montessori, com a análise empírica de uma prática pedagógica concreta. Do ponto de vista social, o estudo contribui para o debate sobre modelos educacionais que colocam a criança como protagonista do próprio aprendizado, tema cada vez mais presente nas discussões sobre qualidade da educação infantil no Brasil.

Maria Montessori
Reprodução - Wikimedia CommonsO contexto do estudo
No centro da investigação está a compreensão do método Montessori como uma proposta que vai além de materiais específicos ou de uma organização diferenciada da sala de aula. Conforme destaca o estudo, trata-se de uma concepção de educação baseada no respeito ao ritmo individual, na autonomia com responsabilidade e na preparação cuidadosa do ambiente para que a criança possa agir de forma independente. “A metodologia Montessori, ao considerar a criança como agente principal da sua jornada educativa, colabora com um aprendizado significativo, atencioso e ligado à realidade”, afirma a autora nas considerações finais .
O trabalho foi desenvolvido no âmbito do curso de Pedagogia da Univates, como exigência para a obtenção do título de Licenciada em Pedagogia. A escolha do tema está diretamente relacionada à trajetória pessoal e acadêmica da pesquisadora, que relata, ao longo da introdução do trabalho, seu interesse pela docência desde a infância e o encantamento progressivo com a pedagogia montessoriana, motivado tanto por leituras quanto por experiências formativas e vivências práticas em contextos educativos que adotam essa abordagem.
Metodologicamente, o estudo desenvolvido por Heloísa adota a abordagem qualitativa por entender que ela permite compreender fenômenos educacionais em profundidade, considerando o contexto em que ocorrem. A pesquisa assume o formato de estudo de caso, analisando uma única instituição de ensino infantil que adota integralmente o método Montessori.
A escola pesquisada atende cerca de 60 crianças de zero a seis anos, organizadas em três agrupamentos: Nido (zero a 18 meses), Bambinos (18 a 36 meses) e Elementar (três a seis anos). A turma acompanhada na pesquisa foi a Elementar, composta por aproximadamente 30 crianças. O espaço físico da sala, com cerca de 60 metros quadrados, é organizado de acordo com os princípios montessorianos, com prateleiras baixas, materiais acessíveis às crianças, mesas de diferentes formatos, tapetes para atividades no chão, pia e banheiro adaptados, além de áreas destinadas às diferentes áreas do conhecimento.

Heloísa Kaplan
Divulgação - Acervo pessoalA análise
No campo da análise, os dados foram organizados em três grandes categorias: metodologia Montessori e o desenvolvimento das crianças; liberdade de escolha e os objetivos a serem alcançados; e proposta pedagógica no método Montessori. A partir dessas categorias, a autora discute como o método contribui para o desenvolvimento global, físico, cognitivo, social e emocional, das crianças, articulando as observações empíricas com os referenciais teóricos estudados.
Durante as observações, a pesquisadora identificou uma rotina marcada pela liberdade de escolha das atividades, pela concentração das crianças e pelo cuidado com os materiais. As crianças escolhem o que vão trabalhar, utilizam os recursos disponíveis e, ao final, organizam o espaço, devolvendo cada material ao seu lugar. A intervenção da guia ocorre apenas quando necessário, especialmente em situações que envolvem os limites de convivência estabelecidos pela metodologia: não machucar a si mesmo, não machucar o outro e não danificar os materiais.
Um dos principais achados da pesquisa diz respeito à importância do ambiente preparado como elemento central do processo educativo. Conforme apontado no estudo, o espaço não é neutro: ele comunica expectativas, convida à ação e favorece a autonomia. Materiais organizados por áreas, vida prática, sensorial, linguagem, matemática e visão de mundo, permitem que as crianças escolham atividades de acordo com seus interesses e necessidades, respeitando os chamados períodos sensíveis do desenvolvimento infantil.
Esses períodos sensíveis, conceito central na obra de Maria Montessori, referem-se a fases em que a criança demonstra interesse intenso por determinadas habilidades, como linguagem, ordem, movimento ou exploração sensorial. A pesquisa identificou que, na prática observada, esses períodos são respeitados e valorizados, contribuindo para um aprendizado mais significativo. Em entrevista, a guia da turma destacou que, ao perceber os interesses das crianças, busca integrar diferentes áreas do conhecimento de forma contextualizada, tornando a aprendizagem mais próxima da realidade e dos desejos infantis.
Outro resultado relevante do estudo é a constatação de que a liberdade oferecida às crianças não se confunde com ausência de regras. Ao contrário, a liberdade no método Montessori está sempre associada à responsabilidade e a limites claros. A diretora da escola enfatizou que existe “liberdade dentro do que se pode dar liberdade”, expressão que sintetiza a lógica da disciplina positiva adotada pela instituição, na qual a criança é incentivada a fazer escolhas, mas dentro de um ambiente estruturado e com regras de convivência bem definidas.
A pesquisa também evidencia a importância do planejamento individualizado no contexto montessoriano. Segundo a diretora, os planejamentos pedagógicos são realizados mensalmente, levando em conta as necessidades específicas de cada criança, independentemente da idade cronológica. “Nós temos a mesma idade, mas o que eu necessito aprender não é o mesmo que tu necessita aprender”, afirmou durante a entrevista, reforçando a ideia de que o desenvolvimento não ocorre de forma homogênea.
As observações em sala de aula permitiram registrar situações concretas que ilustram esses princípios. Em um dos trechos do diário de campo, a pesquisadora descreve crianças servindo chá, passando requeijão no pão com facas adequadas ao tamanho das mãos e utilizando copos de vidro identificados por elas mesmas. Esses episódios, longe de serem exceções, fazem parte da rotina e demonstram como a confiança nas capacidades infantis favorece o desenvolvimento da autonomia, da coordenação motora e do senso de responsabilidade.
Entre as contribuições destacadas estão o fortalecimento da concentração, da independência, do foco e da responsabilidade. A convivência entre crianças de diferentes idades, característica das turmas montessorianas, também aparece como um elemento positivo, favorecendo a cooperação, a empatia e a aprendizagem entre pares. Crianças mais velhas auxiliam as mais novas, ao mesmo tempo em que consolidam seus próprios conhecimentos, criando um ambiente de aprendizagem colaborativa.
Ao final do trabalho, Heloisa Kaplan conclui que a metodologia Montessori, quando aplicada de forma coerente e intencional, contribui para um aprendizado significativo e conectado à realidade das crianças. Ao considerar o aluno como protagonista e respeitar seus tempos e interesses, a escola pesquisada demonstra que é possível construir práticas pedagógicas que conciliem liberdade, responsabilidade e rigor educativo. Para a autora, compreender essas práticas não amplia o conhecimento acadêmico sobre o método e também oferece subsídios para reflexões mais amplas sobre os rumos da educação infantil no Brasil.

