Pesquisa

Trajetórias humanas de grandes cientistas revelam caminhos para um ensino de Ciências mais crítico e contextualizado

Por Lucas George Wendt

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Postado em: 11/02/2026, 11:00:00

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O ensino de Ciências pode ganhar novos significados quando os conteúdos deixam de ser apresentados apenas como fórmulas prontas ou descobertas isoladas e passam a ser compreendidos como construções humanas, marcadas por conflitos, escolhas, relações sociais e contextos históricos específicos. Essa é uma das principais de um estudo que envolveu a Universidade Federal do Pampa (Unipampa) e a Universidade do Vale do Taquari - Univates, que analisou, a partir de uma pesquisa bibliográfica, aspectos biográficos de três nomes importantes da História da Ciência: Nikola Tesla, Ernest Rutherford e Werner Heisenberg.

O estudo, conduzido por Márcio Nascimento de Oliveira, vinculado ao Grupo de Pesquisa Ensino, Aprendizagem e Significados em Ciências (EnASCi) da Unipampa, teve como problema central identificar quais aspectos das trajetórias de vida desses cientistas são potencialmente exploráveis no ensino de Ciências. A investigação parte da constatação de que, apesar dos avanços na área da educação científica, ainda predominam práticas pedagógicas que desconsideram as dimensões históricas, epistemológicas e humanas da produção do conhecimento científico. O artigo integra a edição de 2025 da Revista Caderno Pedagógico. Além de Oliveira, a pesquisa é assinada por André Luís Silva da Silva e Mirella Branco da Trindade, ambos da Unipampa, e pelo professor José Cláudio Del Pino, dos Programas de Pós-Graduação em Ensino e Ensino de Ciências Exatas da Univates. 

Desde o início, o estudo se ancora em uma crítica recorrente no campo do Ensino de Ciências: a fragilidade teórica de abordagens que se limitam ao empirismo e ao indutivismo, negligenciando contribuições da Epistemologia da Ciência e da História da Ciência. Segundo o artigo, pesquisadores da área alertam que o progresso no ensino científico permanece limitado enquanto professores e formadores não incorporarem reflexões mais consistentes sobre como o conhecimento científico é produzido, validado e transformado ao longo do tempo.

É nesse cenário que a pesquisa propõe o uso de narrativas histórico-biográficas como estratégia didática. Ao analisar as vidas de Tesla, Rutherford e Heisenberg, o trabalho demonstra que a ciência não avança de forma linear ou neutra, mas é atravessada por fatores pessoais, sociais, políticos e econômicos que influenciam decisões, trajetórias e resultados.

Do ponto de vista metodológico, o estudo adotou a pesquisa bibliográfica como procedimento central, conforme definido por autores clássicos da metodologia científica. Foram utilizadas fontes primárias consideradas de referência para a História da Ciência, entre elas A parte e o todo, de Werner Heisenberg; Minhas invenções: a autobiografia de Nikola Tesla; e Rutherford: being the life and letters of the right hon., de Ernest Rutherford e Arthur Stewart Eve. A escolha dessas obras permitiu acessar relatos autobiográficos, correspondências pessoais e registros históricos que evidenciam dimensões frequentemente ausentes dos livros didáticos tradicionais.

A partir desse corpus documental, os pesquisadores buscaram reunir e analisar materiais já publicados, verificando a consistência das informações, eventuais contradições e o contexto em que os dados foram produzidos. O objetivo foi reconstruir biografias completas e identificar episódios, características e experiências que possam contribuir para uma abordagem mais humanizada e contextualizada do ensino de Ciências.

Tesla 

No caso de Nikola Tesla, a pesquisa destaca uma trajetória marcada por genialidade, dificuldades pessoais e conflitos éticos e financeiros. Nascido em 1856, na atual Croácia, Tesla demonstrou desde a infância habilidades matemáticas excepcionais e o desejo de se tornar engenheiro, apesar das expectativas familiares de que seguisse a carreira religiosa. Episódios como uma doença que enfrentou na juventude, os estudos em instituições europeias e seus hábitos considerados excêntricos são apresentados como elementos que ajudam a compreender o contexto psicológico e social de sua produção científica.

O artigo também evidencia a influência familiar na formação de Tesla, especialmente o reconhecimento que o próprio cientista fazia da inventividade de sua mãe, figura pouco mencionada nos registros históricos tradicionais. Ao mesmo tempo, são abordados os embates profissionais, como a disputa com Thomas Edison, que resultaram em desgaste financeiro e ético. Esses episódios, segundo os autores, permitem discutir com estudantes temas como reconhecimento científico, relações de poder e os limites entre inovação, mercado e ética.

Nikola Tesla, em 1893, fotografado por Napoleon Sarony

Reprodução - Wikimedia Commons

Rutherford

A trajetória de Ernest Rutherford, por sua vez, é apresentada como exemplo de superação pessoal e mobilidade social associada à educação científica. Nascido na Nova Zelândia, Rutherford contou com o apoio da família para prosseguir nos estudos, conquistando bolsas acadêmicas que lhe permitiram ingressar em instituições de prestígio. O artigo recupera cartas, relatos e episódios que mostram as dificuldades enfrentadas por Rutherford ao chegar a Cambridge, incluindo preconceitos e desafios econômicos.

Ao mesmo tempo, o estudo destaca a importância das redes de colaboração científica na consolidação de sua carreira, especialmente o apoio de J. J. Thomson. Experimentos realizados em condições precárias, frustrações laboratoriais e escolhas profissionais, como o afastamento de aplicações tecnológicas imediatas em favor de questões teóricas fundamentais, são apresentados como elementos que ajudam a desmistificar a figura do cientista como alguém infalível ou isolado de seu contexto social.
 

Ernest Rutherford

Reprodução - Wikimedia Commons

Heisenberg

No caso de Werner Heisenberg, a pesquisa evidencia uma formação marcada por debates intelectuais, influências filosóficas e contextos políticos adversos. O artigo descreve episódios de sua juventude acadêmica, como a interrupção temporária dos estudos e as dificuldades enfrentadas em meio a instabilidades sociais na Alemanha do início do século XX. Encontros com figuras como Niels Bohr e Arnold Sommerfeld são analisados como momentos-chave para o desenvolvimento de seu pensamento científico.

O estudo recupera relatos em que Heisenberg descreve debates, objeções teóricas e diálogos informais que contribuíram para a consolidação de sua carreira, reforçando a ideia de que o conhecimento científico emerge de processos coletivos, dialógicos e muitas vezes marcados por controvérsias. A atuação posterior de Heisenberg em instituições científicas e sua relação com grandes projetos internacionais também são mencionadas como exemplos de como ciência, política e sociedade se entrelaçam.

Werner Heisenberg, Deutsche Bundesarchiv

Reprodução - Wikimedia Commons

As trajetórias interpretadas

Ao reunir essas três trajetórias, o artigo sustenta que a exploração de aspectos biográficos permite evidenciar dimensões pouco abordadas no ensino convencional na escola, como influências familiares, redes de colaboração, enfrentamentos políticos, limitações institucionais e desafios pessoais. Segundo os autores, trabalhar essas narrativas em sala de aula contribui para romper com a imagem do cientista como “gênio isolado” e favorece uma compreensão mais realista e crítica da ciência como atividade humana.

Os resultados da pesquisa indicam que a incorporação consciente de elementos da História da Ciência pode fortalecer propostas didáticas inovadoras, capazes de aproximar os estudantes dos processos reais de construção do conhecimento científico. Ao compreenderem que teorias e descobertas são produzidas em contextos específicos, permeados por incertezas e conflitos, os alunos tendem a desenvolver uma relação mais significativa com os conteúdos científicos.

Nas considerações finais, o estudo reafirma que as trajetórias de Tesla, Rutherford e Heisenberg oferecem múltiplas possibilidades pedagógicas, não apenas pelo valor histórico, mas pela densidade humana, social e política que carregam. Ao valorizar essas dimensões, o ensino de Ciências pode contribuir para a formação de sujeitos críticos, capazes de compreender a ciência como uma construção em permanente movimento, e não como um conjunto estático de verdades absolutas.

Referência do estudo 

OLIVEIRA, Márcio Nascimento et al. Aspectos biográficos de tesla, Rutherford e Heisenberg à luz de princípios da pesquisa bibliográfica: potenciais explorações para o ensino de ciências. Caderno Pedagógico, v. 22, n. 9, p. e18287-e18287, 2025. DOI: https://doi.org/10.54033/cadpedv22n9-258

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