Saúde

Psicólogos da linha de frente enfrentaram sobrecarga, sofrimento emocional e falhas na gestão durante enchentes no Vale do Taquari, revela pesquisa da Univates

Por Lucas George Wendt

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Postado em: 12/08/2026, 08:30:00

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A maior enchente registrada no Vale do Taquari em mais de quatro décadas deixou um rastro de destruição material e perdas humanas. Entretanto, além dos impactos visíveis, o desastre também produziu consequências para aqueles que estiveram na linha de frente do atendimento à população. Uma pesquisa desenvolvida na Universidade do Vale do Taquari - Univates investigou justamente esse aspecto pouco explorado: os efeitos da catástrofe sobre a saúde mental de psicólogos e psicólogas que atuavam nos serviços públicos de saúde e assistência social durante e imediatamente após as enchentes de setembro de 2023.

O estudo, intitulado Saúde mental de psicólogos e psicólogas dos sistemas únicos de saúde e assistência social em um contexto de desastre, foi desenvolvido pela psicóloga Raiany Maria Dreyer, diplomada do curso de Psicologia da Univates e atualmente residente no Hospital Bruno Born, sob orientação da professora Liciane Diehl, docente da Instituição. Publicado na Revista Laborativa, o trabalho registra que os profissionais enfrentaram uma combinação de sobrecarga de trabalho, intenso desgaste emocional, ausência de protocolos claros de atuação e condições precárias de trabalho, fatores que repercutiram diretamente em sua saúde física e mental. Assim, a pesquisa aborda como cuidar da saúde mental daqueles cuja missão é cuidar da saúde mental dos outros.

Divulgação

Do que parte e como foi feita a pesquisa 

O ponto de partida da investigação foi o desastre ocorrido em setembro de 2023, quando houve o transbordamento do rio Taquari. Em menos de doze horas, o nível do rio subiu mais de 13 metros, atingindo cerca de 100 municípios gaúchos e provocando mortes, deslocamentos populacionais e danos expressivos à infraestrutura regional.

Segundo as autoras, embora a atuação da Psicologia em situações de emergência tenha avançado nas últimas décadas, a profissão ainda não está plenamente incorporada à gestão integrada de riscos e desastres. Na prática, isso significa que psicólogos frequentemente são chamados para atuar após a ocorrência da tragédia, mas raramente participam do planejamento preventivo ou da construção dos protocolos que organizam a resposta institucional.

A lacuna motivou a realização da pesquisa, cujo objetivo foi compreender os impactos do desastre sobre a saúde mental dos profissionais vinculados ao Sistema Único de Saúde (SUS) e ao Sistema Único de Assistência Social (SUAS), além de identificar os riscos psicossociais presentes no trabalho e as estratégias utilizadas para enfrentar esse cenário.

Participaram da investigação oito profissionais, seis psicólogas e dois psicólogos, que atuavam em alguns dos municípios mais atingidos pelas enchentes: Lajeado, Estrela, Arroio do Meio e Roca Sales. Todos trabalhavam em serviços públicos, incluindo Unidades Básicas de Saúde (UBSs), Estratégias Saúde da Família, Centros de Atenção Psicossocial (Caps), Centros de Referência de Assistência Social (Cras) e Centros de Referência Especializados de Assistência Social (Creas).

As informações foram obtidas por meio de entrevistas realizadas individualmente. O estudo recebeu aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da Univates, assegurando que todos os procedimentos obedecessem às normas éticas para pesquisas envolvendo seres humanos.

Vitaly Gariev/Unsplash

Os resultados 

A análise das entrevistas permitiu organizar os resultados em três grandes temáticas: riscos psicossociais do trabalho, sinais e sintomas de adoecimento e estratégias de enfrentamento utilizadas pelos profissionais. Entre todos os fatores identificados, um dos aspectos que mais chamou atenção foi a percepção generalizada de deficiência na gestão pública durante a resposta ao desastre. Os participantes relataram ausência de protocolos, comunicação insuficiente entre gestores e equipes e indefinição quanto às responsabilidades de cada serviço.

Uma das entrevistadas resumiu essa percepção ao afirmar: "Gestão muito precária... Existe um plano contingencial para desastres no município, ele não é colocado em prática." Outro participante descreveu um cenário semelhante ao recordar que "[...] a gente não tinha orientação, não tem um protocolo, diretriz para quando isso acontece." Segundo a pesquisa, essa falta de organização produziu sentimentos recorrentes de insegurança, impotência e desamparo entre os profissionais, justamente no momento em que precisavam oferecer apoio à população atingida.

As autoras observam que a literatura técnica recomenda que psicólogos integrem formalmente a gestão dos desastres, participando da elaboração de planos de contingência, da organização das redes de atenção psicossocial e da definição dos fluxos de atendimento. Entretanto, os relatos indicam que essa integração ainda está distante da realidade encontrada nos municípios investigados.

Outro resultado marcante refere-se ao chamado trabalho emocional, conceito utilizado para descrever o esforço que uma pessoa realiza para regular ou modificar suas próprias emoções e sua expressão emocional para atender às exigências de uma situação de trabalho. Os entrevistados relataram que frequentemente se envolviam emocionalmente com a dor vivenciada pelas vítimas, o que tornava difícil estabelecer um distanciamento emocional. Uma psicóloga descreve um atendimento que a marcou profundamente: "Veio uma idosa pedir ajuda porque tinha perdido tudo... eu chorei junto."

Para as autoras, o acolhimento constitui parte importante da prática profissional, mas também representa um fator de risco quando ocorre de forma intensa e prolongada, especialmente em cenários de desastre coletivo. Além da carga emocional, os profissionais enfrentaram jornadas ampliadas, acúmulo de funções e necessidade de reorganizar completamente suas rotinas de trabalho.

Todos os participantes relataram ter trabalhado além da carga horária contratual. Em muitos casos, além das demandas extraordinárias provocadas pelas enchentes, permaneceram responsáveis pelas atividades rotineiras dos serviços de saúde mental. Uma das entrevistadas resumiu esse contexto ao afirmar: "Naquele momento, era apagar incêndio e não deixar ninguém chegar ao ápice de querer cometer suicídio."

Os relatos mostram que a sobrecarga não era apenas quantitativa. Ela também envolvia decisões rápidas, improvisações constantes, necessidade de assumir responsabilidades sem apoio institucional e convivência permanente com situações de sofrimento extremo. As condições físicas de trabalho também sofreram alterações. Diversas unidades de saúde e assistência social foram atingidas pelas águas, obrigando equipes a improvisar novos espaços de atendimento. Uma das psicólogas relata: "Atendemos numa igreja. Não tinha privacidade."

Outra participante descreveu o impacto da perda de documentos e registros construídos ao longo de anos de atuação profissional, afirmando que perceber a destruição desse patrimônio intelectual provocou intenso sofrimento. Segundo o estudo, essas mudanças afetaram também a identidade profissional e a continuidade do cuidado oferecido à população.

A pesquisa identificou diferentes manifestações de sofrimento psíquico entre os participantes. Nos primeiros dias, predominavam fadiga intensa, dificuldade de concentração, desorientação e exaustão emocional. Com o passar do tempo, surgiram sintomas persistentes, como ansiedade, tristeza, culpa, medo da repetição das enchentes e dificuldades cognitivas.

Uma das psicólogas relatou que passou a associar o som da chuva à possibilidade de uma nova tragédia. Outra afirmou ter desenvolvido intenso cansaço físico e emocional nos meses posteriores ao desastre.

Os resultados reúnem evidências já descritas pela literatura científica segundo as quais trabalhadores que atuam diretamente na resposta a desastres apresentam maior risco para transtornos como ansiedade, depressão e transtorno de estresse pós-traumático. Apesar das dificuldades, os profissionais também desenvolveram diferentes estratégias para enfrentar o sofrimento.

Entre aquelas estratégias focadas no problema, destacam-se o apoio entre colegas, reorganização coletiva do trabalho, fortalecimento da psicoterapia e reconhecimento dos próprios limites. Uma das entrevistadas recordou: "Foi com os colegas com que a gente se apoiou, ancorou, dividiu e fez acontecer." Outra relatou que precisou recusar determinada atividade por reconhecer que havia alcançado seu limite emocional.

Já entre as estratégias voltadas às emoções apareceram o compartilhamento das experiências entre colegas, conversas após o expediente, fortalecimento das redes familiares e busca de espaços para expressão dos sentimentos. Um aspecto ressaltado por todos os participantes foi a atuação da organização humanitária Médicos Sem Fronteiras, cujas ações incentivaram práticas de autocuidado, atividade física e atenção à própria saúde mental. Segundo as autoras, essas estratégias funcionaram como fatores de proteção capazes de reduzir parte dos efeitos do estresse vivido pelos profissionais. 

Recomendações às gestões públicas 

Além de dar visibilidade ao sofrimento de uma categoria frequentemente invisibilizada durante grandes tragédias, o estudo apresenta recomendações práticas para gestores públicos.

Entre elas estão a necessidade de elaborar planos municipais de contingência que incluam explicitamente ações de saúde mental e atenção psicossocial; incorporar psicólogos às estruturas de planejamento e resposta aos desastres; definir previamente fluxos de trabalho e responsabilidades; fortalecer a comunicação institucional; avaliar a necessidade de contratações emergenciais; organizar escalas que reduzam a sobrecarga das equipes; e realizar reuniões de avaliação após cada evento extremo para aperfeiçoar protocolos futuros.

Por fim, as autoras defendem ainda que os profissionais da linha de frente também devem ser considerados população prioritária para cuidados em saúde mental durante e após situações de desastre.

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