
Traumas na infância aumentam em até 57% o risco de doenças físicas na vida adulta, aponta grande revisão científica
Por Lucas George Wendt
|Postado em: 12/06/2026, 10:15:00
Crescer em um ambiente marcado por abuso, negligência, violência doméstica ou perda de cuidadores não deixa apenas cicatrizes psicológicas. Uma ampla revisão científica publicada em junho de 2026 na revista eClinicalMedicine, do grupo The Lancet, uma das maiores editoras científicas do mundo, demonstra que as chamadas experiências adversas na infância, conhecidas pela sigla ACEs, do inglês Adverse Childhood Experiences, aumentam significativamente o risco de uma série de doenças físicas na vida adulta, incluindo diabetes, doenças cardiovasculares, enxaqueca e síndrome do intestino irritável.
O estudo, denominado revisão guarda-chuva (umbrella review), é o primeiro do gênero a sintetizar de forma sistemática e abrangente toda a evidência científica disponível sobre a relação direta entre trauma infantil e doenças não psiquiátricas. A pesquisa foi conduzida por uma equipe internacional liderada por pesquisadores do Hospital del Mar Research Institute, em Barcelona, com participação de cientistas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), da Universidade do Vale do Taquari - Univates e do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA). Os nomes que assinam o trabalho incluem Alicia Valiente-Gómez e Joana Bücker (do Programa de Pós-Graduação em Ciências Médicas – PPGCM da Univates), como primeiras autoras, e Adriane R. Rosa e Benedikt L. Amann.

O que são as ACEs e por que importam
Experiências adversas na infância abrangem uma ampla gama de situações traumáticas vividas antes dos 18 anos: abuso físico, sexual ou emocional; negligência física ou emocional; separação ou morte dos pais; convivência com familiares com transtornos mentais ou dependência de substâncias; exposição a violência doméstica; bullying; e dificuldades financeiras severas na família, entre outras.
Estima-se que cerca de 60% dos adultos em todo o mundo tenham vivenciado ao menos uma dessas experiências durante a infância. Até hoje, a literatura científica já havia estabelecido com solidez que as ACEs triplicam o risco de desenvolvimento de transtornos mentais. O que faltava era uma síntese igualmente rigorosa sobre o impacto dessas experiências nas doenças do corpo, e é exatamente essa lacuna que o novo estudo preenche.
Como o estudo foi conduzido
Para chegar a seus resultados, os pesquisadores realizaram uma revisão guarda-chuva, metodologia que consiste em analisar e sintetizar sistematicamente revisões e meta-análises já publicadas sobre um determinado tema. Trata-se do nível mais elevado de síntese de evidências científicas disponível.
A equipe pesquisou três grandes bases de dados científicas (PubMed, EMBASE e Web of Science), com buscas realizadas desde o início de cada base até 30 de abril de 2025, em colaboração com uma bibliotecária especialista da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Os termos de busca foram desenvolvidos para capturar toda a produção científica relevante sobre ACEs e condições médicas não psiquiátricas.
De 1.820 estudos inicialmente identificados, 36 revisões e meta-análises preencheram todos os critérios de inclusão, entre eles a exigência de grupo controle, dados suficientes para análise e foco em doenças com diagnóstico clínico padronizado. Conteúdos sobre doenças congênitas ou sintomas isolados sem diagnóstico formal foram excluídos.
Ao todo, foram analisadas 36 revisões que reuniram 250 estudos originais, envolvendo mais de 6 milhões de participantes. Desses, cerca de 413 mil apresentavam alguma doença física, enquanto mais de 5,6 milhões compunham o grupo de comparação. Os dados foram analisados com modelos de efeitos aleatórios, calculando-se razões de chances (odds ratios – OR) com intervalos de confiança. Os resultados dos diferentes estudos foram combinados por meio de procedimentos estatísticos que permitiram estimar a força da associação entre doenças físicas e transtornos mentais. Além disso, a qualidade metodológica das revisões foi examinada com instrumentos específicos de avaliação, e a robustez das evidências foi classificada em diferentes níveis de confiabilidade, variando de evidências convincentes a evidências mais limitadas. Para assegurar transparência e rigor científico, o protocolo da revisão foi lançado previamente em uma plataforma internacional destinada ao registro de revisões sistemáticas.
Evidências de um elo duradouro
O achado central do estudo é de que qualquer tipo de ACE está associado a qualquer doença física não psiquiátrica na vida adulta, com uma razão de chances de 1,57, o que significa, em termos práticos, que pessoas com histórico de experiências adversas na infância têm cerca de 57% mais probabilidade de desenvolver alguma doença física do que aquelas sem esse histórico. A associação foi classificada pelos autores como altamente sugestiva (Classe II), considerando o enorme volume de dados, a alta significância estatística e o fato de que o maior estudo individual incluído no conjunto também confirmou o efeito.
Quando os pesquisadores analisaram tipos específicos de adversidade, os resultados foram ainda mais expressivos. Bullying foi o tipo de ACE mais fortemente associado a doenças físicas em geral, com OR de 2,04, ou seja, vítimas de bullying na infância têm o dobro da chance de desenvolver alguma condição física na vida adulta, em comparação com quem não foi vítima. Abuso físico (OR = 1,59), abuso sexual (OR = 1,58) e abuso de qualquer tipo (OR = 1,61) também apresentaram evidências altamente sugestivas de associação com doenças físicas.
Entre as doenças específicas, quatro se destacaram por apresentar evidências altamente sugestivas de associação com ACEs:
Enxaqueca/cefaleia: OR = 1,91 — quase o dobro do risco;
Síndrome do intestino irritável (SII): OR = 1,79;
Diabetes: OR = 1,67;
Doenças cardiovasculares: OR = 1,46.
Quando as doenças foram agrupadas por sistemas do corpo, conforme a Classificação Internacional de Doenças (CID-11), destacaram-se associações altamente sugestivas com distúrbios do sistema nervoso (OR = 1,84), sistema digestivo (OR = 1,80), doenças endócrinas, nutricionais e metabólicas (OR = 1,51) e doenças do sistema circulatório (OR = 1,46).

A força dos estudos prospectivos
Um aspecto metodológico fundamental da revisão foi a análise separada de estudos prospectivos, aqueles que acompanham os participantes ao longo do tempo, a partir da exposição, em vez de perguntar retrospectivamente sobre eventos passados. O desenho é considerado mais sólido porque reduz o chamado viés de recordação, pelo qual a memória das pessoas sobre experiências passadas pode ser influenciada por seu estado de saúde atual.
Quando a análise foi restrita a estudos prospectivos, os resultados foram ainda mais significativos sob o ponto de vista metodológico, pois emergiram evidências convincentes (Classe I, o nível mais alto) de associação entre ACEs e doenças cardiovasculares (OR = 1,19) e entre ACEs e distúrbios endócrinos e metabólicos (OR = 1,62). Embora o tamanho do efeito para as doenças cardiovasculares seja modesto nesse subgrupo, a evidência de Classe I atesta que essa associação é real e importante, sem sinais de viés de publicação ou heterogeneidade excessiva.
Mulheres são mais afetadas
A análise por sexo revelou que mulheres com histórico de ACEs apresentam risco maior de doenças físicas do que homens na mesma condição. Em amostras exclusivamente femininas, a evidência foi altamente sugestiva (Classe II) de associação entre qualquer ACE e qualquer doença física (OR = 1,58). Em amostras exclusivamente masculinas, a associação foi sugestiva (Classe III), com OR de 1,42.
Os pesquisadores ressaltam que essa diferença provavelmente não reflete uma proteção biológica dos homens, mas sim desigualdades metodológicas, pois os estudos com amostras masculinas tendem a ser menores, o que limita o poder estatístico para alcançar os critérios de evidência mais elevados. Além disso, a prevalência de ACEs é maior em mulheres, que também enfrentam maior vulnerabilidade social e maior exposição a ambientes violentos durante a infância.
Por que o corpo adoece depois de traumas na infância?
A revisão também discute os possíveis mecanismos biológicos e psicossociais que explicam por que traumas vividos décadas antes podem afetar a saúde física de um adulto.
O primeiro caminho é biológico, pois o estresse crônico na infância, especialmente durante fases sensíveis do desenvolvimento, sensibiliza o sistema neuroendócrino, levando à ativação prolongada do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HHA) e do sistema nervoso autônomo, o que altera a regulação do cortisol e promove inflamação crônica, que está na raiz de condições como diabetes, doenças cardiovasculares e doenças autoimunes.
O segundo caminho é comportamental. As ACEs afetam negativamente o desenvolvimento psicossocial e podem levar a hábitos de vida prejudiciais, como dieta inadequada, sedentarismo, tabagismo e consumo excessivo de álcool, todos fatores de risco conhecidos para doenças metabólicas e cardiovasculares.
O terceiro caminho passa pela saúde mental, pois transtornos de humor, ansiedade e depressão, sabidamente mais frequentes em pessoas com histórico de ACEs, também impactam negativamente os desfechos de saúde física no longo prazo.
Implicações
As conclusões do estudo têm implicações diretas para políticas de saúde e para a prática clínica cotidiana. Os pesquisadores argumentam que as ACEs deveriam ser tratadas como um “sinal vital adicional”, isto é, uma informação rotineiramente coletada pelos profissionais de saúde durante consultas médicas, assim como pressão arterial, temperatura e frequência cardíaca.
“Medidas para identificar indivíduos em risco e tratar sintomas relacionados às ACEs podem ser incorporadas na atenção primária à saúde”, propõem os autores, sugerindo intervenções concretas como: triagem sistemática de ACEs na atenção primária; capacitação dos profissionais de saúde em cuidado informado pelo trauma; vias integradas de encaminhamento para serviços de saúde mental; programas preventivos para promover resiliência em famílias de alto risco; e monitoramento longitudinal para avaliar a efetividade das intervenções.
Limitações e perspectivas futuras
Os autores são cuidadosos ao apontar as limitações do trabalho. A maioria dos estudos incluídos baseou-se em autorrelatos de experiências traumáticas, o que pode ser afetado pelo viés de recordação. Houve também heterogeneidade considerável entre os estudos em termos de definições, populações e métodos de diagnóstico. Para algumas associações específicas, o número de estudos disponíveis foi insuficiente para análise individual.
Além disso, o estudo não analisou as variações culturais entre países, e as características basais dos participantes (como distribuição de idade e sexo) nem sempre estavam disponíveis de forma harmonizada. Os autores também reconhecem que, entre o encerramento da busca e a publicação do artigo, novos estudos relevantes foram publicados, cinco dos quais preenchiam critérios de inclusão, mas não puderam ser incorporados à análise.
Para o futuro, os pesquisadores recomendam a realização de mais estudos prospectivos metodologicamente robustos, bem como investigações que elucidem os mecanismos exatos por trás das associações encontradas, levando em conta fatores genéticos, ambientais e de resiliência que possam moderar o risco de doenças em pessoas expostas a ACEs.
Sobre o estudo
A revisão guarda-chuva foi conduzida por pesquisadores de múltiplas instituições internacionais, incluindo o Hospital del Mar Research Institute e o Instituto de Saúde Mental do Hospital del Mar (Barcelona, Espanha); o Centro de Investigação Biomédica em Rede de Saúde Mental (Cibersam), vinculado ao Instituto Carlos III (Madri, Espanha); a Universitat Pompeu Fabra (Barcelona); o LMU University Hospital (Munique, Alemanha); o Karolinska Institutet (Suécia); o King’s College London (Reino Unido); a Universidade de Pavia (Itália); e, no Brasil, o Laboratório de Psiquiatria Molecular do Hospital de Clínicas de Porto Alegre; a Universidade do Vale do Taquari - Univates (PPGCM/Univates); e o Programa de Pós-Graduação em Psiquiatria e Ciências do Comportamento da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. O conjunto de dados gerado e analisado está disponível publicamente no repositório Zenodo (https://doi.org/10.5281/zenodo.16921572). O artigo foi publicado na revista eClinicalMedicine (volume 96, junho de 2026), com o DOI https://doi.org/10.1016/j.eclinm.2026.103987.


