Igreja Católica emerge como agente no sistema internacional durante a Segunda Guerra Mundial, revela pesquisa de relações internacionais

Por Lucas George Wendt

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Postado em: 04/02/2026, 14:00:00

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A atuação da Igreja Católica no cenário geopolítico da Segunda Guerra Mundial permanece como um dos temas mais debatidos da história moderna. Entre acusações, silêncios interpretados e ações diplomáticas discretas, a figura do Papa Pio XII tornou-se alvo de narrativas conflitantes que moldaram a percepção pública ao longo das décadas. 

Uma nova pesquisa acadêmica desenvolvida na Universidade do Vale do Taquari – Univates, no curso de Relações Internacionais, lança luz sobre esses debates e apresenta uma análise do papel da Igreja Católica no sistema internacional durante o maior conflito do século XX. Intitulada “A Igreja Católica como agente no sistema internacional: o papel da Igreja durante a Segunda Guerra Mundial”, a monografia é assinada por Cauê Santos Machado, sob orientação do Prof. Dr. Edmilson Milan, com avaliação dos professores Dr. Sérgio Nunes Lopes e Dr. Matheus Felten Frohlich, que compuseram a banca examinadora.

O trabalho parte de uma indagação: afinal, qual foi o verdadeiro papel da Igreja Católica no sistema internacional durante a Segunda Guerra Mundial? Embasado em vasta literatura, documentos históricos e na teoria Construtivista das Relações Internacionais, o estudo demonstra que a Santa Sé se posicionou diante das agressões nazistas, e também operou uma complexa diplomacia humanitária e política em um período marcado pela violência, pela instabilidade e pelo avanço de regimes totalitários. 

Ao desconstruir mitos, como os que associam o Papa Pio XII à suposta omissão ou cumplicidade com o nazismo, a pesquisa apresenta evidências que revelam um quadro distinto: o de um pontífice cuja atuação, embora muitas vezes silenciosa por razões estratégicas, foi fundamental para salvar vidas e confrontar, em múltiplos níveis, o regime de Adolf Hitler.

A relevância científica e social da pesquisa reside justamente na necessidade de revisão histórica de temas que, por décadas, foram interpretados a partir de leituras fragmentadas e por vezes politizadas. Para Cauê Santos Machado, o objetivo foi romper com visões simplistas sobre a diplomacia vaticana e apresentar a complexidade de um ator internacional que, apesar de não possuir vasto poder militar ou econômico, exerce influência simbólica, moral e política significativa no cenário global. O estudo destaca a importância de reconhecer a especificidade da Santa Sé no sistema internacional, entendendo sua diplomacia, sua identidade institucional e seu papel na construção de normas e ideias que moldam a convivência entre os povos.

A pesquisa, que combina metodologia qualitativa com abordagem bibliográfica e documental, propõe ainda uma leitura inovadora ao utilizar a Teoria Construtivista como lente interpretativa. Essa teoria, uma das mais influentes no campo das Relações Internacionais, sustenta que ideias, normas, valores e identidades são elementos centrais na construção do sistema global. Assim, a atuação da Igreja Católica não pode ser compreendida apenas a partir de interesses materiais ou disputas de poder, mas sobretudo a partir de sua influência moral, de suas crenças e do peso que suas posições históricas exercem sobre outras nações e agentes internacionais.

No estudo, o autor resgata o contexto anterior ao início da guerra, destacando a ascensão do nazismo, o colapso econômico da Alemanha após a crise de 1929 e o ambiente de frustração nacional que abriu espaço para ideologias totalitárias. Antes de se tornar Papa, Eugenio Pacelli, futuro Pio XII, já atuava como figura-chave na diplomacia vaticana, especialmente na Alemanha, onde serviu como Núncio Apostólico. Sua experiência profunda com a realidade política alemã e sua percepção dos perigos do nazismo moldaram sua postura futura.

A pesquisa analisa detalhadamente as primeiras ações do Papa Pio XII, eleito em março de 1939, meses antes da invasão da Polônia. Documentos analisados no estudo indicam que, já nos primeiros momentos de seu pontificado, o Papa demonstrou preocupação com os judeus perseguidos. Em linhas gerais, o trabalho mostra que Pio XII autorizou cardeais a angariar fundos para refugiados, expediu certidões de nascimento para judeus perseguidos e permitiu que instituições ligadas à Igreja Católica servissem como abrigo e rota de fuga para milhares de pessoas ameaçadas pelo regime nazista. Em hospitais italianos, universidades e conventos, judeus encontraram proteção em grande parte graças à articulação direta ou indireta do Vaticano.

Um dos pontos de destaque da pesquisa é a análise das mensagens de rádio e pronunciamentos do Papa, como a célebre mensagem de Natal de 1942. Embora críticos aleguem que o pontífice não mencionou explicitamente os judeus em sua condenação ao genocídio, Cauê Santos Machado demonstra que, naquele contexto, o termo “etnia” utilizado pelo Papa era compreendido internacionalmente como referência direta ao povo judeu, inclusive pelos diplomatas alemães, que perceberam a fala como um ataque. A Alemanha nazista reagiu imediatamente ao discurso, confirmando a interpretação de que o Vaticano estava denunciando explicitamente seus crimes.

O trabalho também destaca que a postura pública mais contida de Pio XII, frequentemente criticada como omissão, estava diretamente ligada a fatores estratégicos. O estudo lembra que, quando os bispos da Holanda publicaram uma carta denunciando o massacre de judeus, o resultado imediato foi a execução de cerca de 40 mil judeus em represália. Diante de episódios como esse, o Papa foi aconselhado a não lançar declarações mais duras que pudessem desencadear retaliações ainda maiores, optando por uma estratégia de assistência silenciosa. Ao mesmo tempo, o Vaticano enviava mensagens sigilosas para governos, articulava concessões de vistos, coordenava redes humanitárias e instruía religiosos de toda a Europa a agir em defesa dos perseguidos.

Os achados da pesquisa mostram que a ajuda prestada pelos padres palotinos, por exemplo, foi importante para a fuga de centenas de judeus. A Delasem, Delegação para Assistência aos Emigrantes Judeus, teve apoio constante da Igreja, especialmente em Roma, onde padres, médicos e lideranças religiosas falsificaram documentos, esconderam famílias inteiras e organizaram rotas de fuga. A atuação de figuras como o Monsenhor Hugh O’Flaherty, mencionado no trabalho, é um exemplo emblemático: o religioso irlandês desenvolveu uma vasta rede de proteção que salvou milhares de vidas, recorrendo inclusive a transmissões da Rádio Vaticano para informar famílias de prisioneiros sobre o paradeiro de seus parentes.

A pesquisa também analisa as críticas dirigidas ao Papa Pio XII, especialmente aquelas popularizadas a partir da obra O Papa de Hitler, de John Cornwell, publicada em 1999. O autor da monografia destaca, contudo, que a abertura parcial dos arquivos vaticanos e estudos recentes têm demonstrado a fragilidade dessas acusações. Documentos analisados no trabalho mostram que o Papa enfrentou o nazismo por diversos meios, inclusive confrontando diretamente Joachim von Ribbentrop, ministro das Relações Exteriores de Hitler, em encontro no qual relatou detalhadamente os crimes cometidos pelo regime.

Além das questões humanitárias, o estudo revela aspectos diplomáticos que destacam o peso do Vaticano no sistema internacional. A Santa Sé, enquanto sujeito de direito internacional, opera de maneira singular, sem território vasto ou capacidade militar, mas com influência moral, simbólica e política universal. A pesquisa lembra que, durante a guerra, o Vaticano serviu como espaço de comunicação entre nações inimigas, mediou tensões e defendeu reiteradamente a restauração da ordem jurídica internacional com base nos direitos humanos, na dignidade da pessoa e na busca pela paz, ideias que moldariam a fundação posterior da ONU e de organismos multilaterais.

O trabalho de Machado finaliza afirmando que, apesar das narrativas que buscavam reduzir o papel da Igreja a uma suposta passividade, os registros históricos mostram o contrário: Pio XII utilizou todos os recursos disponíveis, espirituais, diplomáticos, jurídicos e humanitários, para tentar conter a violência nazista e salvar vidas. Seu silêncio estratégico, muitas vezes alvo de críticas, foi uma decisão calculada diante do risco real de aumentar ainda mais o sofrimento das populações perseguidas. A pesquisa demonstra que a atuação da Igreja foi ampla, complexa e profundamente influenciada por valores éticos que buscavam, acima de tudo, preservar vidas em meio a um dos períodos mais sombrios da humanidade.

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