
Pesquisa inédita associa impulsividade, desesperança e trauma infantil ao suicídio na região com maior prevalência de casos no país
Por Lucas George Wendt
|Postado em: 29/05/2026, 09:00:00
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Numa das regiões brasileiras que registra os índices mais elevados de mortalidade por suicídio, pesquisadores da Universidade do Vale do Taquari - Univates concluíram um estudo inédito que lança luz sobre os perfis psicopatológicos associados ao comportamento suicida na população local.
Publicado na revista Cuadernos de Educación y Desarrollo (v. 16, n. 6, 2024), o trabalho conduzido no âmbito dos Programas de Pós-Graduação em Biotecnologia (PPGBiotec) e em Ciências Médicas (PPGCM) da Instituição investigou, de forma sistemática e com instrumentos validados internacionalmente, três dimensões do risco suicida: impulsividade, desesperança e história de trauma na infância.
Os resultados, obtidos a partir de uma amostra composta por 170 indivíduos, 119 com tentativa de suicídio (TS) ou ideação suicida (IS) e 51 controles residentes na mesma área, confirmam associações estatisticamente significativas entre essas três dimensões e o comportamento suicida, consolidando evidências que, embora presentes na literatura internacional, ainda careciam de investigação empírica no contexto sul-brasileiro.
A pesquisa foi desenvolvida durante o doutorado, realizado no PPGBiotec, da pesquisadora Janaína Chiogna Padilha, sob orientação dos professores Verônica Contini e Flávio Milman Shansis. A investigação contou também com a colaboração de uma equipe multidisciplinar de pesquisadores: Cinthia Goettens, Estefanea Catherine Coltro, Loren Fontinhas Faccin, Thricy Dhamer, Cristine Weihrauch Pedro, Alexandra Bender Nabinger, Rafael Rocha, Nicholas Emanuel Storch, Cassian Taparello e Alana Eduarda de Castro Panzenhagen.
Uma região em estado de alerta
Para compreender a relevância do estudo, é necessário situar geograficamente o problema. O Rio Grande do Sul é o estado com a maior taxa de mortalidade por suicídio do Brasil, com uma média anual de 13,34 óbitos por 100.000 habitantes, conforme dados do Centro Estadual de Vigilância em Saúde (Cevs). No interior desse cenário, o Vale do Taquari se sobressai como a sub-região com as médias mais elevadas nos últimos seis anos, entre 121 e 128,5 suicídios por 100.000 habitantes, o que a posiciona, em termos relativos, como o epicentro nacional do fenômeno.
Mais da metade dos registros dessa região, aproximadamente 53%, foram emitidos a partir da atenção terciária de saúde, incluindo serviços de urgência, emergência e hospitais. Esse dado revela a magnitude do problema e também a concentração dos casos nos níveis mais críticos do sistema de saúde, o que coloca em evidência a necessidade de estratégias preventivas e de identificação precoce de fatores de risco.
O desenho metodológico: rigor numa população de difícil acesso
Do ponto de vista metodológico, o estudo adotou o delineamento caso-controle, modalidade adequada à investigação de fenômenos de saúde com baixa prevalência relativa e alta complexidade causal. Os participantes do grupo de casos foram recrutados nas Unidades de Emergência (UE) conveniadas ao Sistema Único de Saúde (SUS) no município de Lajeado, -- referência regional no Vale do Taquari --, durante o período de coleta de dados. Para ser considerado elegível, o participante deveria ter 18 anos ou mais, apresentar episódio de tentativa de suicídio ou ideação suicida, ser proficiente em língua portuguesa e assinar o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.
A tentativa de suicídio foi operacionalmente definida como comportamento não fatal autodirigido, potencialmente prejudicial e com qualquer intenção de morrer, independentemente de ter ou não resultado em ferimentos físicos. A ideação suicida, por sua vez, abrangeu pensamentos de autoagressão acompanhados da consideração ou do planejamento de estratégias para causar a própria morte — definições consonantes com os critérios estabelecidos pela American Psychiatric Association no DSM-5. A categorização dos métodos utilizados nas tentativas foi realizada com base na Classificação Internacional de Doenças (CID-10), utilizada por psiquiatras nos locais de coleta.
O grupo controle foi composto por indivíduos residentes na mesma área de captação, sem histórico de internação ou atendimento de urgência por tentativa de suicídio. O critério de paridade geográfica é metodologicamente relevante, pois permite isolar, ao menos parcialmente, as variáveis contextuais e socioambientais comuns a ambos os grupos, tornando as comparações mais sólidas.
Todos os participantes responderam a três instrumentos de avaliação comportamental e psiquiátrica amplamente validados: a Barratt Impulsiveness Scale-11 (BIS-11), que mensura impulsividade em três subdomínios, motora, atencional e de não planejamento; a Beck Hopelessness Scale (BHS), que quantifica a intensidade de atitudes negativas em relação ao futuro; e o Questionário Sobre Traumas na Infância (Quesi), que avalia retrospectivamente a presença de abuso emocional, físico e sexual, além de negligência física e emocional durante a infância. O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Univates (CAAE no 40956820.3.0000531).
Perfil sociodemográfico dos grupos participantes da pesquisa
Em termos de caracterização sociodemográfica, o grupo de casos (TS/IS) e o grupo controle apresentaram similaridades em variáveis como sexo biológico, com predominância feminina em ambos, 60,5% e 64,7%, respectivamente; faixa etária média (37,8 e 42,0 anos); situação conjugal; e religiosidade. As diferenças mais expressivas foram observadas na escolaridade, possuindo 51,9% dos indivíduos com comportamento suicida apenas o ensino fundamental, contra apenas 2% no grupo controle. Em relação ao uso de substâncias: 62,1% dos casos relataram uso de nicotina (ante 39,2% dos controles) e 88,8% mencionaram o uso de álcool (ante 70,6%).
A assimetria educacional constitui, segundo os próprios autores, um viés de seleção reconhecível, embora esperado em pesquisas com grupos controle para transtornos psiquiátricos, contexto em que a baixa escolaridade tende a ser uma variável associada ao quadro clínico, e não um artefato metodológico isolado. A literatura já havia apontado, como recordam os pesquisadores no texto da pesquisa, que os transtornos psiquiátricos estão intrinsecamente correlacionados com declínio cognitivo e menor nível de instrução formal.
Desesperança
Entre os achados mais expressivos do estudo, destaca-se a associação entre comportamento suicida e níveis elevados de desesperança, mensurada pela escala BHS. O escore médio total de desesperança no grupo TS/IS foi de 8,43 pontos, contra 4,14 no grupo controle — diferença com significância estatística de p<0,001. A distribuição por graus de intensidade é ainda mais reveladora: enquanto 72,1% dos controles se encontravam no grau mínimo de desesperança, apenas 27,7% dos casos se situavam nessa faixa.
Em contrapartida, 23,5% dos indivíduos com comportamento suicida apresentaram desesperança em grau grave, categoria que corresponde a pontuações entre 14 e 20 na escala, contra apenas 7% do grupo controle. A desesperança, nesse sentido, constitui um preditor clinicamente relevante do risco suicida, na medida em que traduz a percepção do indivíduo de que o futuro é fechado, sem saída possível.
Impulsividade
Outro aspecto relevante do estudo reside na análise diferenciada da impulsividade segundo subdomínios. Ao contrário do que uma leitura simplificada poderia sugerir, o escore total de impulsividade não diferiu significativamente entre os grupos (p=0,060). A distinção emergiu quando os subdomínios foram examinados separadamente.
Os indivíduos com comportamento suicida apresentaram escores mais elevados de impulsividade motora e impulsividade atencional, enquanto os controles exibiram escores significativamente mais altos no subdomínio de não planejamento. O resultado, aparentemente contra intuitivo, já que a impulsividade por falta de planejamento foi mais intensa no grupo sem comportamento suicida, encontra respaldo na literatura especializada, que distingue a impulsividade enquanto traço disposicional difuso de suas manifestações funcionalmente específicas.
A impulsividade motora, que remete à propensão de agir sem premeditação, e a impulsividade atencional, associada à dificuldade de sustentar atenção diante de intromissões de pensamentos, são as dimensões com maior interface com a desregulação emocional e com a capacidade de inibir respostas comportamentais em situações de crise. Pesquisadores como Bruno e colaboradores (2023), referenciados no estudo, argumentam que as dimensões afetivas da impulsividade apresentam associação mais robusta com ideações e tentativas suicidas do que as dimensões cognitivas e comportamentais, o que aponta para a centralidade dos aspectos emocionais, tanto positivos quanto negativos, nas manifestações relacionadas ao suicídio.
Há ainda um aspecto de gênero nessa equação. Os pesquisadores Brokke, Landro e Haaland (2022), também citados pelos autores da pesquisa, sugerem que a impulsividade motora tende a estar mais acentuada em mulheres que realizam tentativas de suicídio com menor grau de letalidade. Nesse contexto, os resultados apresentados na pesquisa apontam a autointoxicação como método predominante entre as mulheres da amostra, registrada em 49,3% das tentativas femininas, sendo tipicamente associada a menores taxas de mortalidade imediata do que os métodos por enforcamento e lesão autoprovocada, mais frequentes entre os homens (38,1% versus 14,5%).
Trauma na infância
A terceira dimensão investigada, a história de traumas na infância, também revelou diferenças estatisticamente significativas entre os grupos. Além de apresentarem escores totais mais elevados, o grupo de indivíduos com tentativa e/ou ideação suicida também apresentou escores mais elevados nas subcategorias de abuso sexual, negligência física, abuso físico e abuso emocional. Embora a negligência emocional não tenha atingido significância estatística, os escores também foram superiores no grupo de casos.
Esses achados dialogam com um corpo consolidado de evidências sobre as consequências de longo prazo das experiências adversas na infância. Um estudo de corte retrospectivo conduzido em San Diego (Estados Univates), com acompanhamento de cerca de 17 mil pessoas por três anos, já havia sugerido que adversidades vivenciadas na infância se associam a um aumento entre duas e cinco vezes no risco de tentativa de suicídio ao longo da vida. Os mecanismos subjacentes a essa relação são múltiplos e entrelaçados: alterações nos sistemas de resposta ao estresse, desregulação neurobiológica, comprometimento dos vínculos de apego e maior vulnerabilidade ao desenvolvimento de transtornos psiquiátricos, entre outros.
Impacto e perspectivas
O estudo, ao reunir numa mesma amostra regional as três dimensões investigadas, impulsividade, desesperança e trauma infantil, permite observar como esses fatores se sobrepõem e se potencializam mutuamente, configurando perfis de vulnerabilidade complexos que dificilmente podem ser compreendidos de forma isolada.
Do ponto de vista da saúde pública, os resultados apresentados têm implicações para além do âmbito acadêmico, pois, na medida em que produz evidências georreferenciadas e metodologicamente rigorosas sobre o perfil psicopatológico dos indivíduos com comportamento suicida na região com maior prevalência do fenômeno no Brasil, pode oferecer insumos concretos para o aprimoramento de políticas de saúde mental, desde protocolos de triagem nas emergências hospitalares até a elaboração de programas de prevenção que contemplem a identificação precoce de traumas infantis e a intervenção sobre padrões de desesperança e impulsividade motora.
Os próprios pesquisadores, no entanto, reconhecem algumas limitações do trabalho. Além do viés de seleção associado à composição do grupo controle, predominantemente mais escolarizado, apontam um potencial viés de aferição, pois o consumo de álcool e tabaco não foi quantificado por instrumentos padronizados, e a classificação dos métodos de tentativa ficou a cargo de psiquiatras nos diferentes locais de coleta, sem participação direta dos pesquisadores no processo de diagnóstico. Essas ressalvas situam o trabalho num horizonte de pesquisa contínua, que demandará estudos com amostras ampliadas e instrumentos complementares para aprofundar a compreensão das dinâmicas identificadas.
O artigo "Padrão de comportamento impulsivo, de desesperança e de história de trauma na infância em uma amostra de pacientes com tentativa de suicídio do sul do Brasil: um estudo do tipo caso-controle", de autoria de Janaína Chiogna Padilha e colaboradores, foi publicado na revista Cuadernos de Educación y Desarrollo (v. 16, n. 6, p. 01-18, 2024), com DOI: 10.55905/cuadv16n6-091. O trabalho foi desenvolvido no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Biotecnologia e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Médicas da Universidade do Vale do Taquari (Univates), Lajeado, RS.

